sábado, 6 de dezembro de 2014

Tertúlia Análise: O Cinema Distópico


    O que é uma Distopia? Ora, é o inverso de um utopia! Tá, mas o que é uma utopia?!   Imagine uma sociedade que funcione perfeitamente, uma civilização ideal, não há conflitos, não há líderes, tudo funciona perfeitamente. Bem, isso é uma utopia. Elas estão ai desde a Grécia Antiga na República de Platão, e até "antes" na Bíblia. A torre de Babel não pode ser entendida como uma utopia? O termo só foi criado em 1516 com a publicação do livro Utopia de Thomas Morus. Desde 1500 utilizamos o termo dos mais variados modos, mas sempre apontando para origem da palavra: um não-lugar, um lugar que não existe, inalcançável. Mas e a Distopia?
   Distopia nada mais é que uma utopia invertida, negativa. Muitas distopias tem em comum o controle de seus indivíduos pelo estado, instituições, corporações. Mostrando um mundo destruído a distopia acaba sendo a utopia que não queremos que aconteça e geralmente esse é o objetivo dela, mostrar aquilo que não queremos nós tornar. Quando George Orwell escreveu 1984 (1949), criando um futuro de um governo de esquerda totalitário era uma denúncia ao regime socialista e o perigo dele enveredar pelo totalitarismo, porém Orwell defendia um modelo político de esquerda, mas democrático. Desta forma o mundo de Winston Smith é controlado pelo Grande Irmão e pelo Partido que controla os indivíduos nesta sociedade em todos os sentidos possíveis: seus pensamentos e sentimentos. O livro teve duas adaptações para o cinema, 1956 e 1984. A primeira adaptação, em 1956, contava com a direção de Michael Anderson, que dirigiria em 1976 a também adaptação Fuga no Século 23 (Logan's Run, 1976) (#TertuliaView: Fuga no Século 23).


   Uma adaptação muito próximo de 1984 é a Graphic Novel V de Vingança (V for Vendetta) criada por Alan Moore. Publicada entre 1982 e 1983 e finalizada em 1988 a história mostra uma Inglaterra controlada por um governo totalitário, porém aqui de extrema direita, que  controla a sociedade e seus indivíduos com câmeras e manipulando a opinião pública com a mídia. Adaptado para o cinema em 2005, o filme foi criticado por Alan Moore por, na visão dele, retirar a discussão entre fascismo e anarquismo e inserir uma discussão liberalismo versus neoconservadorismo da sociedade americana atual. Uma grande semelhança com 1984 é o lema usado pelo Partido de V de Vingança "Força através da Unidade. Unidade através da Fé" que lembra o lema do Partido de 1984 "Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força".


   Se em 1984 o controle da sociedade e de seus indivíduos vem do Estado, em outros filmes esse controle pode vir de instituições ou corporações. Em Wall-e (2008) a Terra no futuro é governada pela megacorporação Buy-n-Large. Após um catástrofe ecológica a Terra se torna inabitável e a empresa evacua o planeta em uma nave com a esperança de conseguir reverter essa situação. Porém, não dando certo este plano a empresa desiste de voltar para a Terra, pois, apesar da situação a empresa dominava a vida dessas pessoas continuando nesta nave a ótica do consumo desenfreado e da exploração capitalista que parece ter sido a causa da catástrofe. Em Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013) (clique aqui) o ponto de partida é semelhante. Tentando resolver o problema do aquecimento global cientistas mergulham a Terra em uma nova era do gelo. Os últimos humanos que sobreviveram vivem em um trem que segue em constante movimento. Este trem foi criado por Wilford e uma elite é que lidera as ações que ocorrem no trem. O trem acaba sendo uma analogia a sociedade capitalista, Wilford, o criador, é o capitalista, a elite fica mais próxima da locomotiva e comanda o trem. A classe mais baixa fica no último vagão, sendo excluídos deste sistema. A repressão e a violência pelo qual esta elite trata os marginalizados leva a uma revolta que eles quebram o véu e descobrem a verdadeira dimensão deste sistema.


  Outro livro que serviu de inspiração para as distopias no cinema é Admirável Mundo Novo (Brave New World, 1932) de Aldous Huxley. Neste livro o papel do indivíduo na sociedade é definido ao nascer. Quando John, um "selvagem", que vive fora desse sistema é trazido para este mundo ele nos guia pelas contradições deste sistema. A crítica do livro se foca nas figuras de Henry Ford e Sigmund Freud. Ford aparece quase como messias por ter criado a linha de montagem, porém as consequências disto é uma sociedade mecanizada, padronizada, alienada, e Freud mostra o embate entre a satisfação sexual e a repressão ética e moral que é passada por pais e educadores. Neste sociedade em que não existe o conceito de família, os bebês são gerados em incubadoras, as relações sexuais acabam se tornando somente uma forma de lazer e "Cada um pertence a todos".

   O livro foi adaptado duas vezes em filmes para a TV, 1980 e 1998, mas seus temas aparecem em Fuga do Século 23, no recente O Doador de Memórias (The Giver, 2014) (#TertúliaView: O Doador de Memórias)O Doador de Memórias, baseado no livro de 1993 de Lois Lowry, tem algumas semelhanças com Admirável Mundo Novo: a sociedade é condicionada por um grupo de sábios, assim como as funções de cada um nessa sociedade, o crescimento destes indivíduos se assemelha a um linha de montagem, as pessoas tomam uma espécie de droga para inibir emoções, porém há uma diferença fundamental, a ausência das memórias. Isso foi o meio encontrado para que se criasse essa sociedade perfeita, não guardar lembrança de amor, carinho, ódio, tristeza. Porém Jonas ao receber sua função na vida adulta, a de receptor de memória, ele recebe todo o passado do doador de memórias, todas as memórias dessa sociedade e com isso o véu desta realidade cai.


    O filme Equilibrium (2002) neste ponto é muito interessante, pois ele consegue reunir em sua história os principais aspectos de 1984Admirável Mundo Novo e de um terceiro livro também importante para definir este gênero: Fahrenheit 451 (1954) de  Ray Bradbury. Adaptado para o cinema em 1966 o filme mostra uma futura América anti-intelectual. Os livros são banidos pela sua capacidade de gerar reflexão, e subversão, e todos os livros que existem são queimados por "bombeiros". Em Equilibrium após uma Terceira Guerra Mundial o mundo é controlado por um regime totalitário e as pessoas tomam uma droga para que não tenham emoções e com isso evitar novos conflitos, um novo conflito em escala mundial. John Preston é agente que destrói todo material que seja capaz de provocar sentimentos: obras de arte, livros. Porém, assim como o bombeiro Guy Montag, protagonista de Fahrenheit 451, o contato com esses objetos faz o próprio John Preston a questionar o sistema em que ele está inserido e é agente.


    As distopias foram amplamente tratadas pelo cinema nas mais diferentes formas. Além dos citados acima outras distopias ficaram famosas no cinema: Laranja Mecânica (1971), Blade Runner (1982), Brazil (1985), Minority Report (2002), A Ilha (2005), e filmes mais recentes como o Doador de Memória e Jogos Vorazes (2012) que trouxeram esta problemática para o público jovem. As distopias apresentam muitos aspectos em comum: um governo ou instituição que controla seus indivíduos, a sociedade apresentada como um organismo, onde cada indivíduo tem uma função específica, geralmente definida por este estado ou instituição, e muitos filmes mostram um mundo devastado, sociedade ou a natureza. O personagem principal por algum aspecto da história é levado a questionar o sistema que vive e isto leva a derrubar o véu da sua realidade e notar o que está por trás do sistema, e consequentemente questioná-lo. Neste ponto podemos colocar como distopias filmes como Matrix (1998) e Show de Truman (1998), porém, por aquilo ser uma emulação de realidade podemos mesmo considerar como distópico? E isso leva a questionar a própria realidade que separa estes filmes e livros da nossa "realidade".  As obras que apareceram no século XX e XXI no cinema e nos livros tratando de distopias, trazendo problemas que ainda estão presentes em nossa realidade como a constante vigilância, a censura, torna um gênero indispensável para questionarmos a nossa posição e atuação na sociedade e a atuação do estado, das instituições e das corporações no controle e disciplina de nossos desejos, normas e valores.


Siga a página do Cine Tertúlia (FACE/INSTA).
Assine nosso feed para receber as últimas atualizações.
ACREDITE NA GRAVATA!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

TertúliaView: "Linhas de Wellington" (2012) de Valeria Sarmiento

 

Direção: Valeria Sarmiento
Roteiro: Carlos Saboga
Elenco: Nuno Lopes, Soraia Chaves, Afonso Pimentel, John Malkovich

   Se 1808 para o Brasil é a chegada da família real, para Portugal é o início de uma guerra que irá se estender até 1814 e irá destruir o país. Essa é a história que Linhas de Wellington traz as telas. Com a ausência do rei e em consequência da guerra de invasão das tropas napoleônicas, Portugal é uma sociedade desestabilizada: pessoas perdidas, sem rumo, sem passado. Focando na marcha de pessoas o filme é marcado pelo passageiro. E essa marcha segue rumo a Lisboa, onde uma fortificação poderia salvar do invasor.

Xavier e Zé Maria, a trama que atravessa todo o filme

   O filme foca sua trama no soldado português Sargento Francisco Xavier e na sua marcha, na sua jornada por essa terra arrasada de corações e mentes. Porém, durante o filme muitas outras história surgem e por alguns momentos "roubam" a centralidade de Xavier. Porém, é um meio de mostrar a diversidade do impacto da guerra em várias pessoas de variadas origens.

John Malkovich
   Talvez o oposto de Xavier seja Sir Arthur Wellesley, duque de Wellington, interpretado por Jon Malkovich. Suas poucas aparições são pontuais, críticas, e até cômicas, como os diálogos que ele traça com o pintor Lévêque fazendo considerações sobre as obras retratando a campanha inglesa (As pinturas tinha que ser heroicas, não mórbidas). Porém se os antagonistas são os franceses, o filme não deixa claro que os ingleses  também não sejam. Quem é realmente o invasor? O que parece surgir é uma guerra de 3 lados: francês, inglês e português. Poucas são as batalhas que são mostradas no filme. O centro do filme é a marcha da população para as fortificações, as Linhas de Wellington, e os franceses no encalço deles. O filme esta mais focado na realidade do povo português e o sofrimento, os dramas que se desenrolam naquela guerra: a perda, a rejeição, a desilusão. Mas também tenta construir em cima disso um heroísmo do povo português, a união e solidariedade que pode surgir do caos, a capacidade de se defender e a capacidade de seguir em frente apesar da terra arrasada, apesar do cerco de seus inimigos, apesar de ter sido deixado pelo rei. 
   Não deixa de ser interessante olharmos além-mar e compreendermos um pouco a história de Portugal. Filmado em 2012 o nome do filme faz menção ao conjunto de fortificações que impediram o avanço das tropas napoleônicas sob Lisboa. Por ser um filme de guerra podemos pensar que o clima do filme é pesado, porém, o filme sempre culmina em alguma cena de descontração ou de comemoração e a mensagem final é de esperança. Olhar além-mar volta a uma história que julgamos considerar, mas aqui já teima em se afastar.

Forte de São Vicente, Torres Vedras (Dica de viagem com Tertúlia)

TRAILER


Assine nosso Feed para receber as últimas atualizações
Siga o Tertúlia no Facebook e no Instagram
ACREDITE NA GRAVATA!

TertúliaView: "Megamente" (Megamind, 2010) de Tom McGrath.

Quem somos hoje? Afinal, como muitos afirmam, somos nada mais do que aquilo que nossa sociedade constrói, ou impõe, mas infelizmente caímos assim num ramo da filosofia chamado "determinismo", que, como o nome já diz, afirma que temos algo que nos determina, logo essa visão fatalista pode muitas vezes tirar nosso poder de realizar escolhas. E numa sociedade como a nossa, com uma padronização tão efetiva, encontrar nosso papel, encontrar nosso espaço nesse INSANO quebra cabeça, talvez seja algo impossível.

+ Megamente (Megamind, 2010) de Tom McGrath.

POSTER DE MEGAMENTE
Questão que foi apresentada de maneira genial na também animação "Bee Movie" (2007) de Steve Hickner e Simon J. Smith, na qual uma abelha decide fazer algo novo, deixando de lado a ideia de que abelha serve apenas para produzir mel. Assim "Megamente" trabalha com a ideia básica de que vivemos aquilo que a sociedade impõe e não o que realmente queremos ser. "Mas cara é uma animação? Pras criancinhas verem e comprarem o MC Lanche Feliz depois!" Se você quiser acreditar assim, fique a vontade, mas o Cine Tertúlia, sempre está afim de INSANIDADES, assim continue lendo... mas um aviso: sua mente pode ser explodida até o final do texto!

Cena de "Bee Movie"
O início do filme trabalha com a máxima da origem do grande "cueca por cima da calça" "Superman", que (como muitos sabem) veio do planeta Krypton e por uma acaso foi parar na Terra e assim se tornando o super herói mais poderoso do nosso querido planeta... Ahh! Mesmice não? E a partir desse clichezão manjado a narrativa do filme se desenvolve de maneira única, mostrando como foi a criação de Megamente e de seu grande rival Metroman. O primeiro, por um acidente, foi parar numa prisão, enquanto o outro foi parar numa casa com uma família perfeita e a partir disso o rótulo das instituições sociais (escolas, famílias e prisões) começar a ser colocados neles. Metroman passa a ser reconhecido e elogiado por todos, quando nosso protagonista tenta fazer algo semelhante, a sociedade o encara de maneira inversa. E assim infelizmente nossos personagens percebem que os papéis já foram entregues para eles aqui nessa vida, com isso Megamente desiste de ser o que quer, para ser aquilo que lhe impõem, dando prosseguimento a teatralização que nossa vida se tornou em meio a sociedade do espetáculo: o BEM contra o MAL...



Tal espetáculo transcende o filme, ao vermos um filme de temática muito semelhante que saiu no mesmo ano, "Meu Malvado Favorito" (Despicable Me, 2010) de Pierre Coffin e Chris Renaud, que foi lançado primeiro que "Megamente", mas que na minha opinião ficou bem inferior, mas rendeu muito mais dinheiro e sequências. Um referência bem forte seria o fato dos dois filmes possuírem o termo "Minion" que na versão de Coffin e de Renaud ficaram mais famosos. Mas tais "clones" são muito comum no cinema, pois estamos falando de uma sociedade padronizada, sempre a espera do espetáculo, que é sempre o mesmo. Assim podemos colocar como roteiros semelhantes como "Shrek" e "A Era do Gelo", "Formiguinhaz" e "Vida de Inseto", "O Espanta Tubarões" e "Procurando Nemo"; todos com lançamento muito próximos um do outro. É cara, infelizmente isso acontece e dá resultado, isto é, GRANA!


Mas no meio dessa cocozada toda pode sair alguma coisa boa né? Por isso estou falando de "Megamente" ô doidão! O filme discute essa relação com a imposição social como também tem ótima referencias a outros filmes, como "Superman" (1978) de Richard Donner, com a adição de um Marlon Brando e seu papel como Jor-El, temos Criado com seu visual à là Chewbacca de "Guerra nas Estrelas" (1977) de George Lucas, a escadaria e o museu em homenagem à Metroman remetem ao "Lincoln Memorial" em Washington, ou ainda na sátira da campanha à presidência de Barack Obama de 2008 com os dizeres: "No, You Can't". E se você amou a trilha sonora de filmes como "Guardiões da Galáxia" (Guardians of the Galaxy, 2014) de James Gunn vai adorar essa daqui também, com AC/DC, Ozzy Osbourne, Michael Jackson e outras tantas referências a cultura pop. 

E em meio a todas essas papagaiadas o filme não perde seu norte, apresenta de maneira genial de como uma pessoa é aceita ou não em sociedade, colocando a pesada discussão das máscaras que possuímos em coletividade , de como podemos ser aceitos ou não por aquilo estamos mostrando. Assim para poder estabelecer seu primeira amizade com alguém Megamente se disfarça, para poder ser admitido.


Para contextualizar a obra, acredito de impossível não mencionar o recente movimento de filmes voltados para esse público com tal temática: o já citado Meu Malvado Favorito, como também o recente "Malévola" (Maleficent, 2014) de Robert Stromberg, filmes que entram dentro de histórias já apreciadas pelo público, mas com outra perspectiva, o lado "do mal"! Sim, isso mesmo, tentar compreender esse lado e perceber que o dualismo que conhecemos não é nada mais que uma construção. E assim quebrando tantos paradimas o filme tenta mostrar ao espectador que ele pode ser livre desses rótulos que conhecemos, e assim retornamos a nossa pira básica: o poder de escolha que temos em sermos aquilo que realmente queremos ser.

TRAILER LEGENDADO
clique aqui
Download: Clique aqui.

SIM, VOCÊ PODE SIM!


Insanidades é que não faltam... o que falta é você no meio disso tudo!
Comente! Curta! Participe!
INSANIDADES PARA TODOS!

AH! Tem um curta que saiu posteriormente ao filme!
"The Button of Doom" (2014) - CC

clique aqui

Assine no feed de notícias ali em cima!
Curta nossa pagina no facebook e no instagram!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Tertúlia Indica: "O Segredo de Eleonor" (Kérity, La Maison des Contes) 2009 de Dominique Monfery


Direção: Dominique Monfery
Roteiro: Anik Leray e Alexandre Reverend
Direção de Arte: Rébecca Dautremer e Richard Despres


   Livros são portas sempre prontas para serem abertas e levarem a gente para algum lugar distante, para um tempo distante, e ainda perto. Kérity é sobre um reino de letra e tinta, e sobre aprender a ler, porém não só letras, mas um mundo. Se focando em histórias, imaginação, sonhos, o filme brinca com a capacidade dos livros serem esses guias para mundos desconhecidos e fabulosos. Natanael, personagem principal, é uma criança, mas também herói, guardião, protetor. Encontrando adversidade, descrença, oportunismo e desonestidade, a sua imaginação é seu escudo e espada para enfrentar o mundo real com o irreal.

"Não é por ser inventado que não existe"

  O filme está muito ligado a frase "Não é por ser inventado que não existe", que tem papel importante na história. Essa por acaso não é uma essência do cinema? Mas, voltando um pouco, o cinema não vem do teatro? E o roteiro de uma peça nada mais é que um livro... E quantos livros não viraram filmes. Nem sempre um bom resultado. Porém ali naquela tela personagens ganham cor, textura, som, nem sempre batendo com aquilo que você desenhou em sua cabeça, mas isso é ótimo, é a imaginação de cada um levando a vários personagens. O contador de história pode criar, modificar histórias, e um contador de história somos todos nós, todos os dias. E Natanael se torna esse contador de história. Não como imaginamos, mais como aprendiz de feiticeiro. Porém, para contar história não é preciso experiência, somente imaginação.
    Tudo isso é empacotado em uma arte incrível de Rébecca Dautremer e uma trilha que busca mexer com a nossa criança interior. Baseado em um livro, o filme fala que não podemos abdicar de nossos sonhos. Manter nosso coração de criança é manter acreditando em um mundo melhor, pois livros são portas, mas também espelhos, eles são duplamente guias, para nossa realidade. Sou o livro que li ontem, sou o filme que vi semana passada. No dia nublado os livros pintam milhões de sóis em nosso teto. Kérity é uma história simples sobre histórias, imaginação, sonhos que fazem a gente querer ir além.

(No sentido horário) Livro Da Terra à Lua, 1865, de Júlio Verne
Filme Viagem à Lua, 1902, de George Meliés
"Buzz" Aldrin na superfície da Lua, 1969


TRAILER


Siga o Cine Tertúlia no Facebook e no Instagram
Assine nosso Feed e recebe as últimas atualizações.
ACREDITE NA GRAVATA!

TertúliaView: "O Segredo dos Seus Olhos" (El Secreto de sus Ojos, 2009) de Juan José Campanella.


Cena inicial SENSACIONAL do filme!
Ahh o passado, esse cara é algo definidor de nossa vida hein. Com base nele é o que somos hoje, ou seja, somos frutos dessa árvore, deste modo ele não é algo que podemos simplesmente apagar sem perdermos algo de nós mesmo, pois nosso presente vem desse mesmo cara... Isso não quer dizer que eu defenda uma exaltação dele, mas sim um reconhecimento e um confronto... "Enfrenta-lo? Mas ele não seria nossa árvore, nossa origem?" Sim! E até digo mais... Temos que enfrentar a nós mesmos.



+ O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de sus Ojos, 2009) de Juan José Campanella.
Poster de "O Segredo dos Seus Olhos"
O filme começa de maneira perfeita: com memórias - memórias de nosso querido Benjamín Esposito, interpretado pelo sempre presente Ricardo Darin -uma memória de uma partida... de um romance... de uma brutalidade... Afinal qual delas é a VERDADE? No decorrer do filme descobrimos que todas são a VERDADE, ou melhor, partes de uma verdade, diferentes perspectivas de um fato. Que não sai das lembranças de Esposito, pois esse passado marcou ele de maneira tão intensa, que mesmo estando aposentado e velho, ele não consegue esquecer. Assim, agora aposentado, decide colocar essa lembrança no papel, quer escrever um livro sobre... Mas é aquela história: mexer com o nosso passado é mexer com seus frutos, é mexer com nós mesmos.





De tal modo conhecemos que ele foi um grande investigador, batendo de frente com as burocracias do sistema de justiça, sempre se dedicando ao máximo em seu trabalho. É nesse contexto que fica encarregado de um brutal caso de abuso sexual, que irá marcar tanto sua vida como de seus colegas de trabalho. E nesse momento que decide escrever um livro sobre isso, faz algo que nunca teve a mesma coragem de fazer: enfrentar a si mesmo - assim como enfrentava o sistema de justiça! E do mesmo modo que falei, enfrentar seu passado é como lutássemos contra nós mesmos.


Ricardo Darín e Guillermo Francella.
Mas a genialidade do filme não para ai, ao analisarmos o roteiro do filme, ele é genial por "brincar" com as expectativas do espectador. Quando estamos numa cena cheia de suspense ele é quebrado com um evento cômico, quando estamos num momento tenso ele se rompe com algum romance... Assim o filme passa desde uma narrativa policial até uma história de humor. Acredito assim como temos diversas vivencias em nossa história temos diversos tipos de lembranças, não temos uma vida só de tristeza, nem só de tensões, mas sim de uma infinidades de maneiras que transformam o nosso viver em algo quase surreal. Os enquadramentos não deixam nem um pouco a desejar, como por exemplo na cena em que Esposito e Morales conversam na estação, em que ela se move e mostra o clima de justiça impossível que paira no ar, ou melhor ainda, na cena do Estádio Tomás A. Ducóde Avellaneda em que mostra um plano único para uma das mais INSANAS perseguições do cinema, com todo um estilo de Gaspar Noé e de Alfonso Cuarón. FIQUE COM O VÍDEO ABAIXO


Mas o filme se atem sempre a questão de um homem que enfrentou a tudo, menos a si mesmo, assim nessa nova tentativa de olhar seu passado virão novas interpretações, novas memórias serão criadas (lembre-se a memória nunca é estática, está sempre em movimento). Como ele mesmo diz: 

"Como pude não ter feito nada? 
Há 25 anos que me pergunto, 
e há 25 anos que respondo a mim mesmo: 
'foi outra vida, já passou... não pergunte, não pense.' 
Não foi outra vida... foi esta! 
É esta! Agora que entendi isso..."



Veja só que INSANO, nosso querido Benjamín Esposito decide fazer aquilo que sempre teve medo de fazer: reconhecer que seu principal adversário nada mais é do que ele mesmo! E logo percebe que a desculpa de seu "inimigo" ser algo que já aconteceu, não quer dizer que não possa afronta-lo... Sim, isso mesmo! Afrontar suas raízes, pensar sobre aquilo que você era e o que você acreditava, refletir sobre ele é algo MUITO surreal (vide o intenso "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" de Michel Gondry), assim como o personagem Morales alega para Esposito.


"Não fique mais imaginando, não fique pensando 
no que aconteceu, no que não aconteceu...
senão vai ter mil passados, e nenhum futuro. 
Não pense mais, não vale a pena. 
Fique somente com as lembranças."



Portanto vemos que muitos consideram a memória como algo indiscutível, "aconteceu e só"... Mas o filme de Campanella vai além da discussão se ela pode ou não ser discutida, mostra  como cada personagem se relaciona com esse fato, com essa lembrança cheios de sentimentos relacionados: amor, afeto, dedicação, ódio, aversão, animosidade, vingança, desafronta e etc. Somos seres humanos, não somos rótulos de SIM ou NÃO, somos seres em constante transformação, ao enfrentarmos nosso passado, acreditarmos no presente e imaginar um novo horizonte algo de novo surgirá. O que? Sinceramente não sei! E assim o filme termina de maneira cômica e perfeita! De um "TEMO" para um "TEAMO".

"- Tenho que falar com você.
- Vai ser complicado!
- Não me importa!
- Feche a porta!"

TRAILER LEGENDADO
clique aqui


E AI? CURTIU NOSSA INSANIDADE DE HOJE? NÃO CURTIU? COMENTE!
VIVA A TERTÚLIA!

E NÃO SE ESQUEÇA!
ASSINE NOSSO NEWSLETTER ALI EM CIMA!
CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK E NO INSTAGRAM!
ACREDITE NA GRAVATA!