quinta-feira, 20 de novembro de 2014

TertúliaView: "Fuga no Século 23" (Logan's Run) 1976 de Michael Anderson



Direção: Michael Anderson
Roteiro: David Zelag Goodman, William F. Nolan, George Clayton Johnson
Elenco: Michael York (Logan), Richard Jordan (Francis), Jenny Agutter (Jessica).


Cuidado, este post contém revelações sobre o enredo.
            Antes de tudo é primordial contextualizar o filme, assim vamos começar pelo seu ano de lançamento: 1976, década que marcou uma sociedade estadunidense com grande questionamentos que iam de frente com diversos valores morais enraizados ali, sendo um produto de combinações de décadas anteriores de uma sociedade em transformação, a ideia de uma sociedade perfeita capitalista não se sustentava mais, o chamado "sonho americano" se tornou uma grande falácia, nesse contexto conhecemos a década de 1970, com a realização de diversos projetos que buscavam ser uma alternativa a uma crise no moralismo rígido da sociedade. De tal modo surge a geração beat com experiências com drogas, a perda da inocência, a revolução sexual e os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos. Influenciando movimentos como o feminismo, dos direitos civis em favor dos negros e homossexuais e os "hippies" - a chamada de contracultura. Tudo que sairia disso não iria ser partidária dessa "sociedade perfeita".
            Tal sociedade é muito bem discutida no filme, uma sociedade que se baseava em uma ilusão, o "perfeito" seria somente para poucos, assim como apresentado no também setentista "Ano 2003 - Operação Terra" (Futureworld, 1976) de Richard T. Heffron - que tem um dos melhores finais da história do cinema (SPOILER) - em que somos apresentados a uma tentativa de criação de um lugar perfeito. Mas em Fuga no Século 23 o role já é mais pesado! Estamos em uma sociedade perfeita! Todos sobreviventes de uma guerra no mundo - assim como em "Blade Runner" (mais no livro de Philip K. Dick) e em "Equilibrium" ao tratar de um mundo posterior à uma nova Guerra Mundial. Sendo uma sociedade que vive somente para o prazer, proporcionado principalmente por máquinas, uma possível referência a uma sociedade cada vez mais dependente de máquinas para se obter a felicidade. Assim como temos hoje com celulares e o computadores, que provavelmente você esteja utilizando agora para ler esse texto, ou como cinema, fruto de uma sociedade compulsiva por máquinas, sendo uma arte fruto de máquinas.
            Uma vida fácil, sem preocupações e onde a oferta de sexo é fácil. Apenas ligue sua máquina, veja um catálogo e escolha um parceiro - apenas momentâneo - para se divertir. Típico da sociedade do consumo fácil e rápido que começa a se delinear na década de 1970. Porém, no filme não se torna tão fácil assim. Nosso protagonista faz todos estes passos, porém a parceira escolhida por ele, o rejeita. Não aceita transar com ele. Justamente com ele, um indivíduo que ocupa uma posição elevada naquela sociedade. Não era isso que esta sociedade o prometera.
            Essa sociedade se baseia estritamente no presente: o passado? Sem reflexão... o futuro? Não há outra possibilidade se não a continuidade do presente, uma sociedade sem aspirações e sem expectativas. Logo o ritual chamado de "renovação" é a "morte" dos habitantes, para poderem renascer jovens novamente. Por qual motivo ficar velho? Se a memória não se faz útil e o futuro não é encarado com esperança? Então vamos viver um ciclo infinito sem expectativas... Mas afinal porque ter alguma? Seu sistema é "simples, lógico, perfeito. Você tem algo melhor?", como diz o personagem Francis 7 ao nosso protagonista Logan 5, se eles vivem em um paraíso, não há questionamento!
            Se não há expectativas, não há apego, não há esperança pela mudança... E assim essa sociedade é cada vez mais individualizada, com cada um em sua função (escolhida no momento em que nascem, já que eles são "renovados"), o apego se torna algo antiquado e obsoleto. Conhecer seus progenitores é algo considerado asqueroso... Afeto é algo inconcebível... O ser humano se coisifica, em meio  a um mundo de pessoas funcionais e sem sentimentos.
            Outro ponto interessante é a relação do tempo com a liberdade, na cidade todos possuem um chip que determina o tempo de vida de cada um, assim eles estão presos dentro de um ciclo de funcionalidades e produção. Uma cena em que Logan 5 e Jessica 6 percebem que seus relógios não funcionam mais, logo não se encontram mais dentro do sistema temporal da cidade, eles se encontrar simplesmente como são: humanos... E numa possível referência ao movimento de liberdade sexual do período, eles estão peladões nessa cena.
           Durante todo o filme, a questão da ambivalência da vida é problematizada. Para quem nunca ouviu falar desse conceito, ele foi cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Esta ambivalência a que Bauman se refere é a relação entre a segurança e a liberdade. Para mais informações, recomendo uma entrevista dele disponível no Youtube.


            Em uma sociedade que se pode ter tudo, a liberdade se torna uma pequena ideia sacrificada em nome da segurança e diversão que pode ser desfrutada ao longo de 30 anos. Uma ideia tentadora sem dúvida, mas ao mesmo tempo entediante, ainda mais para jovens que não aceitam serem controlados e por isso fogem para uma ala da cidade isolada e vivem como indigentes.
            Todos são privados de saírem da redoma que cerca a cidade, e se tentarem, são eliminados. Um eufemismo adotado pelos vigilantes, pois mesmo neste momento não se pode admitir a morte. Mas por que esta compulsão por deixar a cidade? Talvez o medo da tal renovação, que muitos aceitam crentes que retornarão novos em folha, mas ninguém nunca conheceu alguém que tenha se "renovado". O que há lá fora? Logan 5 é designado a descobrir. A Máquina ordena que ele encontre "O Santuário" e para isso o transforma em um dos fugitivos, tirando seus preciosos anos de juventude antes do "Carrossel de Fogo". Anos que não é bem certo que a Máquina o devolverá. Quando os papéis se invertem, Logan 5 começa a compreender porque as pessoas tentam fugir deste ambiente seguro. A morte no fim assusta, ainda mais para indivíduos de uma sociedade imediatista. Nós iremos realmente voltar? Nunca se encontrou ninguém para responder...
            Tornando-se agora um fugitivo, Logan 5 agora tem que lutar com aqueles que antes eram seus parceiros de trabalho e tentar cumprir sua missão, que neste momento não é mais encontrar o tal "Santuário", mas sobreviver. E quando realmente ele consegue, descobre-se um mundo completamente diferente do que ele conhece. Isso merece ser compartilhado com as pessoas que vivem na redoma de vidro. Mas quem lhe daria ouvidos? Obviamente uma grande referência à Platão e o seu Mito da Caverna.
            Mas acho que o filme peca muito ao colocar conclusões, Logan e Jessica encontram antigos símbolos políticos dos States (assim como em "Planeta dos Macacos" de 1968), andando nas ruínas do "National Mall" de Washington DC e lá encontram um velho, coisa que nunca tinham conhecido: algo velho, com memórias, vivências e sentimentos. Assim esse velho se torna então a solução para as mentiras que foi construído o mundo de Logan... sacou? O velho seria uma analogia aos antigos costumes estadunidenses, ao encontrar a solução dentro dele o filme alega que a solução para o futuro do mundo está contido naquele "passado" da história do filme, mas o presente de 1970. Logo o filme cai infelizmente em sua própria crítica, ao exaltar a sociedade presente dos Estados Unidos e afirmar que o futuro é algo maldito. Além disso, o velho que detém memórias de como o mundo era antes da guerra é o único que pode questionar as verdades impostas por aqueles que controlam a cidade na redoma de vidro, uma forte alusão aos regimes totalitários que a pouco os Estados Unidos livrou o mundo. 
            Fuga no Século 23 não trás discussões tão inovadoras se olharmos hoje. Filmes como os já citados Equilibrium (2002) e Planta dos Macacos (1968), ou mesmo Matrix (1999) e 1984 (1984), trazem discussões se não parecidas, muito próximas. Porém temos que levar em conta o ano que "Fuga" foi produzido, 1976. Em meio de diversas mudanças políticas, culturais e sociais que o mundo da Guerra Fria atravessava, sua abordagem certamente levantou discussões importantes para o período e que se mantém atuais. Vejo Fuga no Século 23 como a ficção científica por excelência, não apenas por se passar em um futuro cheio de máquinas e roupas estranhas, mas por utilizar esses elementos para dialogar com a época em que foi produzido e assim levantar discussões e críticas.

O Carrossel. Esse não parece ser tão divertido "//
Nunca confie em robôs!!!
TRAILER


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terça-feira, 18 de novembro de 2014

TertuliaView‬: "Garota Exemplar" (Gone Girl, 2014) de David Fincher.

Ahhhh... que FELICIDADE! Acho que esse é um sentimento que estou muito afim de compartilhar com vocês! Sabe qual é a melhor sensação do mundo? Sair de uma sala de cinema e poder falar com todas as letras: FODA! Assim vamos comigo no ‪#‎TertuliaView‬ de hoje, sobre "Garota Exemplar" de David Fincher.

+ GAROTA EXEMPLAR (Gone Girl, 2014) de David Fincher

Poster de "Garota Exemplar"
Acredito que posso fazer uma recomendação para todos logo ao início da resenha, por favor, NÃO LEIA O LIVRO! Quer dizer, não leia antes do filme... Digamos que o filme ficou tão intenso que ler o livro homônimo de Gillian Flynn antes, é como se você estivesse lendo spoilers em nível elevadíssimo. Aconselho sinceramente que assista o filme,compreenda o que Fincher quis adaptar e depois se jogue no livro! Conheça a mentalidade dos personagens e assim você estará pronto a falar FODA² de maneira única! 

Ben Affleck e Rosamund Pike

Assim sendo, ao analisar a filmografia de David Fincher percebemos de maneira clara que o diretor sempre mostra uma sociedade doente, cheia de problemas, como a insanidade apresentada nos fodásticos "Seven" (1995) e "Clube da Luta" (Fight Club, 1999). Mas acredito que o 10º longa metragem do diretor traga algo mais original, um enredo mais legítimo ao cotidiano, aquela pitada do ingrediente "lar, doce lar talvez não seja tão doce assim", utilizado muito pelo Mestre Alfred Hitchcock. Como também a impressionante maneira como dirige os atores, se Hitchcock era adepto da filosofia de que atores devam ser tratados como gado, Fincher não fica para trás ao vermos esse filme, em que temos um Ben Affleck e uma Rosamund Pike sensacionais, assim como tínhamos um James Stewart e uma Kim Novak em "Um Corpo Que Cai" (Vertigo, 1958).

Ben Affleck

Sei que muitos criticam Ben Affleck com a máxima "um ótimo diretor, mas um péssimo ator", sinceramente acredito que ele possui seus momentos, mesmo ganhando o Oscar por "Argo" (2012) acredito que sua obra prima foi ao lado de Matt Damon com "Gênio Indomável" (Good Will Hunting, 1997) em que escreveram o roteiro. Agora ele manda muito bem agora como ator em "Garota Exemplar".

Rosamund Pike

Sobre a figura de Rosamund Pike vemos que as mulheres na filmografia de Fincher sempre lutavam para sobreviver à um mundo dominado por homens, exemplos? A grande tenente Ripley (Sigourney Weaver) no grande (isso mesmo "GRANDE", amo esse filme!) "Alien 3" (1992), a mãe e filha Altman (Jodie Foster e Kristen Stewart) em "Quarto do Pânico" (Panic Room, 2002), Lisbeth (Rooney Mara) no destruidor "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres" (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011). São mulheres que estão passando por momentos extremos. Mulheres que em nossa história foram compreendidas inequivocamente por nós mesmo, mas que provam que estão vivas. Assim a própria Gillian Flynn, que não poderia ficar fora desse INSANO filme, se torna a roteirista do mesmo.
 
Ben Affleck e suas "caras de bunda"


Tá precisando de uma SINOPSE para se encontrar em meio tanta brisa? Aqui está: Na época de seu quinto aniversário de casamento, Nick Dunne (Ben Affleck) avisa a polícia que sua linda mulher, Amy (Rosamund Pike), está desaparecida. Sob pressão da polícia e da imprensa, a imagem desse casamento perfeito começa a desmoronar. 


Comparações e sinopses à parte, vamos começar a BRISAR mesmo queridos tertulianos! O filme se desenrolada como na sinopse acima apresentada, mas tal enredo não dura nada mais do que uma hora e assim a dupla David Fincher e Gillian Flynn já chegam para nos desorientar, portanto acredito que esse enredo base seja algo como a jogada da isca. E quem é a presa? Nós, os espectadores. E assim sem pedir licença e sem nem um "oi, tudo bem?" levamos um murro na cara! Aquele murro forte mesmo, nos deixando sem chão... Como? AH! Quebrando todas nossa fé sobre a história até então apresentada. E para os desavisados, ao sair da sala de cinema não é diferente, não temos nenhuma certeza! Nos deixando só aquele clima tenso construído em "A Caça" (Jagten, 2012) de Thomas Vinterberg, em que você não confia nem no que você mesmo observou.


Fincher brinca com isso muito bem ao tentar nos mostrar esse teatro de aparências que vivemos, no filme seria o teatro da investigação, da opinião pública, do casamento, das amizades e das relações familiares. Ele não perdoa! Jogando em nossa cara suas duras críticas à sociedade da informação, em que nós nos tornamos peças publicitárias de nós mesmos. O importante é o que se encena diante das câmeras - sejam elas de uma grande rede de televisão ou num "mural" virtual. Aparências que todos os personagens do filme estavam acostumados, principalmente a personagem de Amy, com os livros "Amy Exemplar", uma série de livros de seus pais escreveram para apresentar um filha perfeita: onde a Amy real falhava, a Amy "exemplar" reinava! 


Mesmo sendo muito comum a reclamação para com os títulos nacionais acredito que no caso de "Garota Exemplar", tanto o livro como o filme, acertaram em cheio! Muito melhor que "Gone Girl" ("garota que foi") no original. Logo o filme/livro se torna exemplar na perspectiva de se compreender nossa contemporaneidade, compreender a nós mesmo, se torna EXEMPLAR, um modelo de como pensamos e de como agimos nessa sociedade das aparências. E assim a única certeza que posso afirmar a vocês após ler o livro e assistir o filme: "O CASAMENTO MATA", assim como apresentado em (letras garrafais e amigáveis) no verso do livro.

Parte traseira do livro.

PS: É li o livro também, foi antes do filme, mas não importa, só de olhar para o livro daqui já me bate uns calafrios. 

TRAILER LEGENDADO


Acredito que essa arte aqui abaixo fale tudo!



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E VIDA LONGA A TERTÚLIA!

Tertúlia Indica: "As Bruxas de Zugarramurdi" (Las Brujas de Zugarramurdi, 2013) de Álex De La Iglesia.

Sabe aquele estereotipo que temos sobre filmes Hollywoodianos que são rápidos e intensos? Bem... recomendo a você dar uma assistida nesse filme de Álex De La Iglesia - mesmo diretor do bizarro O Dia da Besta (1995) e do bizarro² Balada do Amor e do Ódio (2010)... que é um filme espanhol...

+ As Bruxas de Zugarramurdi (Las Brujas de Zugarramurdi, 2013) de Álex De La Iglesia.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgq4JgO3IMB83mI5DYuqV_4HMdWmANDVPzCRpg_sYT54P-TsvCxQWqmXoOpAD47morU_xCXs75qmEwf_w_1tF0U8C9ev7UGn72_blsKL57Rf_LYCYmFc016gWBRIiFJWjfxnU6xYsUpEX-h/s1600/las_brujas_de_zugarramurdi_ver3_xlg.jpg
Poster do filme
O filme já começa com uma tentativa de assalto a uma joalheria, em que há tiros, sangue, mortos, fuga de carros e tudo que a indústria cultural pode nos oferecer. Cenas que são impossíveis de não dar risada! São cenas bemconstruídas, seja pela qualidade dos efeitos ou pela pura ridicularizarão da história, de tal modo que é um filme que vai do cult ao que há de mais INSANO... Tal cena de abertura pode ser colocada como uma das mais INSANAS cenas de assalto do cinema, cheia de ações inusitadas até diálogos únicos... Mas tudo construído num ritmo alucinante e frenético.

 
Para situarmos você no role, Zugarramurdi é uma vila em Navarra, na Espanha, e é conhecida como a cidade das bruxas devido ao seu passado envolvendo a bruxaria e o paganismo. Em 1610 a Inquisição Católica chegou à Zugarramurdi e processou 53 pessoas, que supostamente se reuniam na Caverna de Zugarramurdi para praticar bruxaria. História BUNITA né? Foi isso que De La Iglesia pensou ao querer fazer esse filme aqui. 


O melhor de tudo é o desenvolvimento da história... Um exemplo? Quando nosso grupo de anti heróis saem de uma perseguição policial para chegar de maneira inexplicável a um bar bizarríssimo... Ai que o role começa a ficar INSANO mesmo! O filme começa cada vez mais tacar o FODA-SE  e se assume como um filme B, ou seja, com violência explícita, com humor inadequado, estilo gore... Para que falar mais? ASSISTA! Surpresas te aguardam nessa piração coletiva aqui, este filme é aquele trabalho BIZARRO que o cinema de vez em quando nos tem o prazer de nos presentear!

Pouco bizarro... não?
Temos uma Carmen Maura, famosa por filme de Almodóvar como Volver (2006), e um Mario Casas, famoso por ser Hache em Sou Louco por Você (2012), em atuações impagáveis e bizarras, que merecem ser conferidas por você caro tertuliano (saca a imagem ao lado)!

Carmen Maura e Mario Casas
Mesmo sendo um filme tão bom o final pode muitas vezes cagar tudo... Pirando aqui e escrevendo esse texto - ao som de "The Shape of Punk to Come" da banda Refused - acredito que o final possa ser considerado machista, pois durante o filme percebemos que os personagens masculinos possuem problemas com suas mulheres e com um "happy end" tudo acabaria na afirmação de um discurso hegemônico, não acham? Mas ao pirar novamente no filme - e ainda ouvindo Refused - os homens são apresentados como estúpidos e fúteis, as mulheres más e destruidoras, assim acredito que o diretor quis mais era "chutar a bunda e sair do projeto", isto é, utilizar de estereótipos e sair atirando críticas para todo lado, assim como todo filme B que temos o prazer de assistir (no meio de tudo isso rola até declaração homoafetiva). 


E como é apresentado na fala final do filme: "Odeio finais felizes! [...] Veja aquilo, a família feliz. Eles têm dinheiro, carro, casa, cão, jardim. E tudo isso os destruirão pouco a pouco. E quando a felicidade não deixar-lhes nem respirar..." Esperamos então mais INSANIDADES caro De La Iglesia.

TRAILER LEGENDADO
clique aqui



PS: Mencionei a banda Refused pq ela aparece de maneira perfeita no trailer e é uma das minhas bandas favoritas! 


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sábado, 15 de novembro de 2014

TertúliaView: "Lucy" (2014) de Luc Besson


Diretor: Luc Besson
Roteiro: Luc Besson
Elenco: Scarlett Johansson, Amr Waked, Min-Sik Choi, Morgan Freeman


   Como podemos definir Lucy? Afinal, sempre estamos tentando definir, encaixar, dar nome aos bois. Porém Lucy fala o inverso no fim, não? sim! talvez...
   Besson ao escrever o roteiro de seu novo filme colocou a power girl que faz parte de seus outros filmes como Nikita (1990) e O Quinto Elemento (1997). Porém o poder em Lucy não fica somente num sentido figurativo, ela de fato tem poderes e muito facilmente ela poderia esquecer a gravidade e voar. Besson também coloca outra marca sua: tiroteios, perseguições, ação frenética e injustificável. 
   Lucy é uma estudante americana em Taiwan que um belo dia se envolve com a máfia local. Utilizada à força como mula para atravessar uma nova droga para seu país eles costuram um saco de droga dentro de seu corpo. A droga CPH4 é a sintetização de uma enzima liberada por grávidas e seria responsável pelo estágio de crescimento final do bebê. Quando um peão da máfia gentilmente chuta a barriga de Lucy a droga entra em seu organismo e seu efeito é aumentar a capacidade cerebral da protagonista. Tudo isso intercalado com imagens de uma palestra do Professor Samuel Norman interpretado por Morgan Freeman explicando o que o ser humano seria capaz de fazer caso pudesse utilizar progressivamente a capacidade do cerébro. E além disso imagens que fazem jus a um documentário do discovery channel ilustrando os conceitos que o filme apresenta: evolução, sobrevivência. Lucy, a partir que a droga entra em seu metabolismo, começa a quebrar essas "barreiras" que os 10% de uso do cerébro impedem de ser acessados: telepatia, telecinese, absorver conhecimento instantaneamente, ou optar por não sentir dor, e tudo esse entendimento leva também ao declínio de seu lado emocional. Vendo o mundo de forma lógica, toda emoção se esvai. E com isso o filme evolui apresentando a evolução de seus "poderes" e do uso da capacidade cerebral.
   O filme antes de tudo é uma experiência visual espetacular do começo ao fim. É um filme de ação? De ficção científica? Posso dizer que são dois gêneros acontecendo ao mesmo tempo, intercalados. Não aponto totalmente para ficção científica pois apesar de Besson tentar construir reflexões durante o filme ele não se aprofunda nelas e alguns pontos ficam meio que soltos na trama. Quando Lucy aponta a ideia que 1 não é a unidade, o tempo é a unidade de algo sem limite, isso causa um incômodo por vários motivos: Primeiro, o tempo então não se torna uma nova unidade? Segundo, o tempo não tem fim, mas tem um começo,  Big Bang, e isso já não tornaria também o tempo limitado em sua origem? No exemplo do carro que acelera até um ponto que desaparece, e sem o tempo não existiríamos, se pararmos no meio da estrada não seremos atingidos pelo "tempo"? A questão que quero colocar é o tempo é somente uma questão matemática? Qual noção de tempo ela está falando? Qual era a relação das pessoas com o tempo quando não eramos uma sociedade pautada pelo ganho de tempo, pelo tempo acelerado, pelo tempo sempre nas nossas costas, pelo "tempo é dinheiro", pelos relógios em torres, nos nossos pulsos, nos nossos bolsos, nos despertadores, agendas, smartphones? 
   Nesse ponto, Lucy é um filme antropocêntrico. A experiência que o filme nós dá é uma filosofia das incertezas do homem e a centralidade que ele assume nesse mundo. Porém se Besson ai tenta desconstruir está centralidade ele não é efetivo, afinal o filme começa com as células de um zigoto (óvulo fecundado) se dividindo, e perto do fim as células voltam a se unir e explodem, uma quase analogia com o Big Bang. Essa analogia da célula se repete quase todo o filme, porém as células não são os menores componentes em nosso corpo, células são feitas de átomos, e frisar a importância da célula acaba sendo um tiro no pé, pois pode acabar voltando na questão da evolução e o ser humano como o pico desse processo. Esse antropocentrismo fica mais visível na cena em que Professor Norman fala que uma célula em um ambiente desfavorável escolhe a imortalidade. Apesar de inúmeros exemplos de bactérias sobrevivendo perto de vulcões submersos com temperaturas extremas e sem luz, fungos que crescem em Chernobyl, Besson coloca imagens de enchentes, tempestades, tornados, vulcões.
   Quanto as incertezas, pensemos no nascimento e na morte, estes momentos são os momentos em que o ser humano já não tem mais a experiência do tempo pois não tem consciência de si, é a incerteza da morte que alimenta crenças de que exista algo além dela. Bem, acreditar que, se só utilizamos só 10% do cérebro, se fosse possível utilizar mais poderíamos fazer coisas inimagináveis, talvez até vencer a MORTE!
    Apesar de Lucy parecer uma espécie de filósofo que começa a refletir sobre a vida, o universo e tudo mais a partir que sua capacidade cerebral aumenta, ela deixa transparecer um certo egoísmo em relação a droga quando ela vai atrás dos outras pessoas que iriam atravessar a droga em outros países. Além disso, a ideia 10% do cérebro é uma forma de explorar o desconhecido, afinal sempre nós questionamos os limites da nossa realidade quando vamos ver um filme de terror ou de super-herói. Porém, esse limite não tem embaçamento científico. Um pensamento simples, se só usamos 10% do cérebro pessoas que perdessem a funcionalidade de partes do cérebro em acidentes ou por doença continuam funcionais?
   Apesar destas questões que me incomodam, acho que o filme é efetivo em nós dar algo para refletirmos sobre nossa condição humana. Lucy com o aumento de sua capacidade cerebral perde suas emoções, perde o encanto com o simples, com o banal, com o imperfeição. Talvez seja isso que Besson estivesse pensando ao escrever que agora sabemos o que fazer com nossas vidas. Sem falar explicitamente é uma tentativa de resposta ao "De onde viemos?" "Pra onde vamos?". A ênfase, apesar do questionar ser importante, deveria ser no viver.

Adivinha quem eu to no filme

Toxic Avenger é você?

TRAILER

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